
Sônia Carneiro, carinhosamente conhecida como Soninha, foi uma das jornalistas que ajudaram a contar, de dentro dos corredores do poder, alguns dos capítulos mais importantes da história política brasileira das últimas décadas.
Natural do Rio de Janeiro, Sônia iniciou sua carreira no jornalismo em 1971, na Rádio Jornal do Brasil, em um período em que ainda eram poucas as mulheres presentes diariamente na cobertura dos centros de poder. Ao longo de sua carreira, construiu uma relação profunda com Brasília, o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto.
Foram 32 anos de atuação no Jornal do Brasil e na Rádio Jornal do Brasil, onde exerceu diferentes funções, passando pela reportagem, pela reportagem especial e pela chefia de reportagem. Em Brasília, também esteve à frente da rádio do grupo, consolidando-se como uma profissional respeitada na cobertura política.
Sua trajetória profissional se confunde com momentos decisivos da história recente do país. Sônia acompanhou de perto o movimento Diretas Já, a Assembleia Nacional Constituinte de 1988, a CPI de PC Farias e o processo que culminou no impeachment de Fernando Collor. Durante a Constituinte, esteve diariamente no Congresso, acompanhando as negociações, os debates e a participação da sociedade na construção da nova Constituição brasileira.
Era conhecida pela franqueza, coragem e perguntas diretas. Sua maneira de entrevistar autoridades fazia com que muitas vezes conseguisse respostas que outros profissionais não obtinham. Um dos episódios mais lembrados de sua carreira ocorreu em 1992, quando, durante uma entrevista coletiva, questionou diretamente o então presidente Fernando Collor sobre rumores relacionados à sua saúde.
O reconhecimento veio também na forma de homenagens. Em 1992, recebeu o Prêmio Imprensa Estrangeira, concedido pela Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira no Brasil. Em 2013, foi homenageada pela Câmara dos Deputados com a Medalha Assembleia Nacional Constituinte, em reconhecimento àqueles que tiveram participação ou atuação relevante durante aquele período histórico.
Depois de mais de três décadas nas redações, Sônia passou a atuar na comunicação institucional. Trabalhou no Ministério do Trabalho, na representação do Governo da Bahia em Brasília e no Ministério da Defesa. Nos últimos anos, integrou a assessoria do senador Jaques Wagner, mantendo sua ligação com a vida pública brasileira.
Mas a história de Sônia Carneiro não pode ser resumida apenas aos cargos, entrevistas e grandes acontecimentos que cobriu. Por trás da jornalista que enfrentava autoridades e passava dias e noites no Congresso estava também uma mãe que precisou conciliar uma profissão extremamente exigente com a criação dos filhos.
Para sua família, esse talvez seja um dos maiores legados deixados por Soninha: a perseverança, a coragem e a fidelidade aos próprios valores. Seu filho Terence Zveiter destacou justamente essa dimensão da mãe ao lembrar que, além da grande jornalista reconhecida por todos, ela era uma mulher forte e guerreira, que nunca abriu mão de seus princípios.
Sônia Carneiro morreu neste domingo, 20 de setembro de 2026, aos 74 anos, em Brasília, após um mal súbito. Segundo informações da família, ela morreu dormindo, em casa. Deixa os filhos Terence e Danniel Zveiter, além de uma história profissional que atravessa mais de meio século do jornalismo brasileiro.
Sônia Carneiro deixa, sobretudo, o exemplo de uma jornalista que não apenas acompanhou a história do Brasil — ajudou a registrá-la. Esteve diante dos protagonistas da redemocratização, acompanhou a construção da Constituição de 1988 e testemunhou, com seu gravador, suas perguntas e sua presença nos corredores do poder, transformações que marcaram gerações.
Sua voz se cala, mas permanece o registro de uma vida inteira dedicada à informação, ao jornalismo e à história do país.
Sônia Carneiro, Soninha, deixa saudade e um legado que pertence à história da imprensa brasileira.
Fontes:
https://www.poder360.com.br/poder-midia/morre-jornalista-sonia-carneiro-aos-74-anos/
https://www.abi.org.br/morre-aos-74-anos-a-jornalista-sonia-carneiro-em-brasilia