Homenagem ao Dr. Mauricio de Campos Bastos

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 A Academia Nacional de Direito Desportivo registra, com pesar, o falecimento do Dr. Mauricio de Campos Bastos, narrador da Copa do Mundo de 1950, pai do Presidente da ANDD, Ministro Guilherme Augusto Caputo Bastos. No ano de 2013, Dr. Mauricio concedeu entrevista ao jornal Correio Braziliense, a seguir reproduzida:
Maurício de Campos Bastos é um contador de histórias nato. A depender do caso, de tão fantástico, parece até ficção. Mas é apenas o advogado e jornalista elencando a sucessão dos fatos que lhe passaram ao longo dos 83 anos. O tempo vai rápido, enquanto ele conta trechos de uma vida de muito trabalho, dedicação e sorte. Sim, Maurício é um homem de sorte. Mais do que tudo porque sempre soube recebê-la. “Eu a vejo com humildade. Recebi a sorte com naturalidade, talvez por isso ela sempre me tenha aparecido”, despista.
Ex-juiz do trabalho e advogado conceituado, Maurício começou cedo e teve uma história profissional imprevisível. A voz que transmitiu a Copa do Mundo de 1950 para a Rádio Industrial de Juiz de Fora (MG) era jovem. A bem da verdade, era a voz mais jovem do radialismo brasileiro a cobrir aquele trágico mundial em que o título escorreu das mãos da Seleção Brasileira em pleno Maracanã. Era Maurício. Ele tinha só 19 anos e dividia a cabine de imprensa nº 17 com o lendário comentarista esportivo Mário Helênio de Lery Santos, o Tesourinha.
Recorda de se abster das emoções quando o apito final sagrou o Uruguai o campeão do mundo. “Perdeu por quê? Vi como era a concentração dos jogadores na véspera, em São Januário. A quantidade de gente, de jogador trançando de um lado para o outro, recebendo presente. Na véspera de enfrentar o Uruguai? Não, não estranhei. Aquele time não tinha pernas para ganhar o jogo”, resume, implacável.
A experiência no rádio ia bem. Ele chegou a mudar-se para o Rio de Janeiro, mas bateu a saudade de casa e o alerta do pai, um comerciante de ferragens . “Ele disse que eu tinha de estudar. Só com o ensino médio, eu não tinha nada”, conta. Maurício decidiu, então, cursar direito na Universidade Federal de Juiz de Fora. A escolha foi estritamente pessoal. Ainda menino, com 13 anos, Maurício acompanhava o pai em sessões de tribunais de júri. “Ficava impressionado com os advogados. Eles se levantavam, gesticulavam, batiam na mesa, tinham argumentações incríveis. Arrasavam os promotores”, relembra.
Dança com JK
Apesar das exigências universitárias, a carreira de reportagens no rádio continuou, mesmo depois que o jornalista já era também advogado formado e atuante. Assim, Maurício conheceu e entrevistou tantas personalidades que escreveram capítulos cruciais da história política brasileira. Um dia, convocado para um evento com o então presidente Juscelino Kubitschek, no Rio de Janeiro, Maurício entrou no Palácio das Laranjeiras sozinho à procura dos colegas de imprensa. Em vez disso, foi parar em um salão íntimo do palácio. Deu de cara com JK dançando com a filha, Márcia. “Ele parou, disse a ela que a dança ia ficar para depois e me deu um abraço. Pensei ‘meu Deus, cadê um fotógrafo para registrar esse momento?’. Andamos os dois sozinhos até encontrar os outros e ninguém, nenhum fotógrafo, apareceu para fazer uma foto”, narra.
O rádio deu a ele não apenas experiências na vida, mas também a chance de conhecer a mulher com quem construiu uma história de quase 60 anos. Cléa Caputo, vez ou outra, era parte da plateia dos programas da rádio gravados em auditório, como o “Bastonadas e Tesouradas”, ancorado por Maurício e Mario Helênio. O flerte acabou em namoro, namoro em casamento, casamento em uma família com nove filhos e, hoje, 22 netos.
A carreira dupla teve de cessar quando surgiu a oportunidade de entrar para o Poder Judiciário, como juiz suplente do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região. Àquela época, o ingresso na Justiça podia acontecer por indicação, desde que sancionada pelo presidente da República. O ano era 1962. Quem assinou o decreto de nomeação de Maurício foi João Goulart. Naquele tribunal, ele serviu em novembro de 1972. Naquele mês, a família Caputo Bastos mudou-se para Brasília.
Antes da fundação do TRT da 10ª Região, a jurisdição sobre a capital brasileira pertencia à Corte sediada em Minas Gerais. Havia demanda por juízes em Brasília, e Maurício resolveu aceitar a mudança. A ideia era ficar oito anos na cidade, até se aposentar. Brasília era passagem, pensava. Até que o ônibus entrou no Eixão e ele viu a beleza simétrica de prédios nivelados. “Fiquei deslumbrado. Falei para a Cléa que era aqui que a gente ia ficar”, conta.
Desde as Minas Gerais, das quais ele fala com bastante saudosismo, o juiz Maurício de Campos Bastos não gostava de fazer advogado esperar. “Quis fazer diferente. Também tinha sido advogado e sabia como era estar do outro lado”, justifica. Era possível despachar a qualquer hora. Desde que o advogado esperasse ele terminar a frase, caso ele estivesse no meio de uma. “Você só se desenvolve em solidariedade com outras pessoas. Ninguém avança sozinho”, completa o magistrado.
Querido professor
No contraturno do expediente no Judiciário, Maurício lecionava na antiga Associação de Ensino Universitário do DF (AEUDF), hoje Centro Universitário do DF (UDF), ofício que executou com muito gosto. De tão querido, num mesmo ano foi escolhido como paraninfo por cinco turmas de cursos diferentes. “Foi uma honra. Uma das maiores que já me concederam”, fala, sincero. Ensinar era um prazer e uma necessidade. Mesmo o salário de juiz não dava conta de arcar com todos os custos de uma família composta por 11 pessoas.
Aliás, Maurício sempre fez questão de mostrar aos filhos o quanto ganhava para que entendessem a origem de eventuais privações. “Lá em casa, eu sempre fiz duas coisas: mostrar meu contracheque e dizer que não quero filho meu sendo o primeiro da turma”, revela. Não, isso não quer dizer que ele não incentivasse o estudo das crianças. “Queria que eles soubessem o mesmo que o primeiro da classe, mas não queria essa pressão. Ficava muito satisfeito quando um deles era o quarto, o quinto. O importante é saber”, explica.
A tática deu certo. Todos os filhos têm formação superior. Cinco dos nove seguiram a profissão do pai. Carlos Eduardo foi ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entre 2004 e 2008, representando os advogados. Guilherme Augusto tornou-se ministro do Tribunal Superior do Trabalho. Francisco presidiu a Ordem dos Advogados do Brasil do DF entre 2009 e 2012, e hoje tem um escritório com o irmão Gustavo Henrique. Eveline, também advogada, trabalha como servidora do TST. Sérgio Maurício é engenheiro elétrico. Liliane, empresária. Adriana atua na Organização Internacional do Trabalho e Denise é educadora.
O retorno
Assim que se aposentou, Maurício foi a Belo Horizonte pedir a revalidação do registro na OAB para voltar a exercer a advocacia. No avião de volta a Brasília, encontrou um conhecido e, quando viu, já tinha emprego. Atuou alguns bons anos até integrar o conjunto de advogados do escritório montado pelos filhos. Hoje, Maurício não atua mais na linha de frente. É um precioso consultor do escritório Caputo Bastos e Fruet. Por isso mesmo é que, recentemente, diante de imprevistos, coube a ele fazer uma sustentação oral no TST. “Três advogados não podiam. Eu tive que ir, fazer o quê?”, diz, bem-humorado.

Radiografia
Nome: Maurício de Campos Bastos
Nascimento: Juiz de Fora, Minas Gerais,
em 21 de fevereiro de 1930
Profissões: advogado e jornalista
Casamento: com Cléa Caputo Bastos
Filhos: Carlos Eduardo, Sérgio Maurício, Guilherme Augusto, Gustavo Henrique, Francisco, Adriana, Denise, Eveline e Liliane